Mais Mena, Menos!

Não era mais cheio, não era mais vazio
mais ou menos
não era como Márcio imaginava ou como Mirlane contava
era Meio cheio - disse Mena
meu amigo de cinema; qual filme indagavam enquanto Marley sorria
já era tarde, ainda em tempo, mas a chuva impedia
em Duas tendas lá expostas o amor protegiam
Guanabara ou Pampulha, em um parque estariam

sístole cética, diástole devota

Num céu falto de estrelas, havia uma Polaris.
Havia.
Circunscrevendo meu itinerário por entre mentes e almas incógnitas.
Não mais a há.
Livre e desconcerto continuo nesta profusão por entre corpos e cabeças e lábios e olhares e toques e nuances - ainda anônimas.
Num continium roteiro desconhecido, ainda morno, esvaindo enquanto ferve e principia a evaporar.
Pois ainda havia.
O delito da inexistência de um norte existiu. Sujeito desconhecido ainda que presente.
Num presente em que presentes são escassos.
Num presente em que um raro e oportuno acalanto é valioso.
De tanta valia que transgride a incerteza da dúvida dissipando o anonimato.
Não se engane, o responsável pela violação da rota ainda é a junção de dois seguimentos de retas com o mesmo tamanho (ainda que diminutos) ortogonalmente.
Trajetórias opostas que se uniram ao encontro daquela luz pulsante no céu de uma noite escura e sombria.
Num único ponto singular. Ínfimo e infinito. Que teve seu fim num pulsar destoante.
Não mais o há.
Há agora outro corpo, outra cabeça, outro lábio e outro olhar. Outras nuances.
Nuas.
Guiado por essa nudez carnal pulso. Cada pulsar determinando um novo curso. Na estrada. Na vida.
Posto que viver é pulsar. Vivo.
Vivo desafiando o desconhecido. Vivo a pulsar e buscar um tino. Que tinha. Quietou. Não mais pulsa o que havia?
Afirmo o incerto num pulso duvidoso. Pois se não souber em que ritmo pulso, como poderei pulsar?
O fato é que, de fato, o pulso factualmente pulsa. Até não mais pulsar.
Assim saberei (saberemos); quando o pulsar cessar.
Enquanto pulsamos, mantenho me dúbio sobre a certeza que afirmo não saber.
Pulsar é viver.
Viver é desconhecer.

através de um caleidoscópio

Quando se esquecer. Do que? De você. Pode ser que seja ao atravessar uma tempestade. Imagine se seu cachorro se afogar. Lute com os dentes. Você e ele. Você ainda tem no seu bolso aquela foto que vai ter fazer lembrar. Isso sou eu. Eu sou assim. E dar forças. Pra continuar lutando. Lutar do tupiniquim viver. E viver é colorido. Muito colorido. Tantas cores! E são todas tão lindas. Vão tentar te enganar. Não duvide. Quem? Ninguém. Só quem pode te enganar é você. Mas você é colorido. Sou? Não se engane! É sim, lembra? Lembra daquele som? Aquele da sua infância. Tu turu turuu! Lembro. Guardei debaixo de uma pedra toda colorida. Meu mundo. Por que mesmo que ele se foi? Não conseguia entender. Fui atrás. Aí que chegou a tempestade. Mas já passou. Nos salvamos e continuamos a procurar. Ele, meu mundo. E entender também. Mas que diacho de lugar é esse? Tudo tão escuro e cinza. Sem música. Sem cores. Sem vida. Que sentimento estranho. Nunca senti isso antes. Parece apertado e... triste. Trim trim. Olha! Uma bicicleta. Parece tão divertido. E esse moço tem um negócio esquisito, gente! Esse não faz barulho quando assopro. Será que.. é de olhar? Tu turu turuu... Olha! Que coisa estranha! Não parece nada que já vi antes! Acho que... gostei! Tão colorido!





Narro a vida com lentes inventadas de papel machê. Finjo que sou o que pretendo ser. Afinal ao final serei. Autor da minha própria lenda. Mentiroso. Para Platão, poeta. Para Pessoa, fingidor.
A razão cessa quando um
                                          somos
                                                dois. Se somamos: somos. Irracionalmente realista. Místico. Tão completamente que tinge os limites antes tão borrados. Agora os enxergo com uma clareza sutil. Nítido. La douceur de la vie. Levo a vida com a leve razão dos cafoni. Não crio tipos. Sou consciência.

godão careca

- “Vantooiiiiirrr!”
- “Que é… Zula?”

Boa noite, boa noite. Boa noite. Por obséquio, meus prezados. Gostaria de pedir uma informação.

Na verdade gostaria de lhes passar uma informação. Certa vez me contou uma piada. Sobre um homem. Solicitando uma coroa de flores para um funeral. Descrevia o homem. Gostaria de uma coroa de flores grande. Grande. Circular. Com os dizeres: “Descanse em paz”, de ambos os lados, e, se houver espaço “no céu nos encontraremos”. O vendedor, não acostumado com tantos detalhes, e também vírgulas, não entendeu. A divina comédia do cotidiano pautada em probabilidades diminutas que coincidentemente causam o riso. E o sorriso.

Hoje é o dia dele. Do sorriso. E dele. Do seu Vantoir. Mentor, avô. Pai. Vô, vô Tuir. Godão careca.
Foi.
É.
Será.
Sua simplicidade ascendeu e acendeu em nós uma chama. Como um grande homem não conteve toda sua sabedoria só pra si. Distribuiu. E a cada um toca de uma forma. Singela ou intensa. Tocou. Compartilhando coisas boas, vive. Semeando coisas boas. Mais de setenta anos ao lado da dona Zula. Mais de oitenta anos de ambos os lados.

Ambíguo nunca foi. Sempre preciso, determinado e decidido. As adversidades ele superou. Com a força que despertava da sua mente. Construiu. Orientou. Criou. Desenhos, projetos e ideias. Idealizou um objetivo e o atingiu. Engenheiro nível cinco da Petrobras. Homem nível dez. Quem o conhecia, o admirava. E admira. Um ídolo despretensioso. Grande homem. E por isso te agradeço. Não por ser um grande homem. Por ser você.

Quem diria que em toda sua grandiosidade, seria um senhor a passear com um cachorrinho barbudo e branquinho. Assíduo frequentador do cafézinho. E do docinho. Mas primeiro a salada. Depois o prato. Só então o cafézinho. Incansável clarinetista. Ocasional saxofonista, agora. Músico. Síndico. Defensor do interesse público em escritos para a BHTrans, para a CEMIG, para a câmara de vereadores de Ribeirão Vermelho e para qualquer outra coisa que não julgasse correta. Escrevia e explicava. De-ta-lha-da-mente. Uma escrita aprumada, direta e treinada em horas a fio de palavras, cruzadas ou não.

Um acumulador. De canetas. Grampos. Eletrônicos. Pneus. Coisas. Pessoas. Acumulou tantas e acrescentou a tantos. Generoso. Prestativo. Amigo. Cumpadre do colegas do ITA, da turma de 1950 “a turma do foguete”. Sucesso nas rádios nos finais de semana, da onde tirava seu ganha pão. Artista de circo, quem diria? Manchete de jornal holandes, quando perguntou a profundidade do rio e deu a entender que queria atravessar nadando por falta de balsa. Comandou a construção da bacia de Campos e tinha linha direta com o presidente da companhia. Resolve qualquer pepino. Alguns de um jeito dúbio a priori. Sempre funciona.

E funciona assim, vô. Dando que se recebe. O que posso te oferecer agora, são só essas palavras. Logo te oferecerei minha formatura. Você é meu exemplo e meu norte. Meu amigo, meu cumpadre. Você é meu orgulho. Te adoro e te amo. Obrigado por tudo e sempre estaremos juntos.

De ambos os lados e orgulhosamente seu neto,

Rodrigo Mena de Oliveira.

escolha

Metafísica. Filosofia. Deliberações incessantes e incansáveis. Por um tempo o eu não coube em mim. Caibo. Eu escolhi a simplicidade. Escolhi as imperfeições interessantes. Escolhi o sorriso, o abraço. A dor. Adoro. Não a dor. Caber.

Se Clarice transbordava, eu escolhi derramar - tentar - nos outros. Eu escolhi.

Chega de colóquios polidos e jargões presunçosos. Eu escolhi a minha fala. Que pode até ser elegante e requintada. Chique sô. Mas de uma elegância bruta e rústica - pra ser sistemática falta a prática.

Escolhi. Não encolhi.
Sou.
Corpo.
Mente.
Alma.

na vida tudo passa, até a uva

A busca pela sobrevivência é inerente ao ser humano e, biologicamente falando, sobreviver não se trata apenas de viver. Trata-se, como pode ser observado no prefixo "sobre", de ir além da vida, de extrair do efêmero o perene. Deixar um legado.


Não curto eufemismos metalinguísticos e deveria ter a capacidade de expandir o que sinto sem a necessidade de ser assertivamente erudito.

Mas ta foda.

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